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O que tenho guardado no peito- Ana Camarinha


Ilustração do conto de Ana Camarinha " O que tenho guardado no peito". Mostra um homem e uma mulher abraçados em um cemitério. Do lado uma pena preta abrindo para um fundo branco e o título do conto em vermelho.


Desde que descobri sobre minha mãe biológica, o Dia das Mães ganhou um novo significado para mim. Pela manhã, eu e Marta — minha segunda mãe — nos preparávamos mais um ano para visitar a lápide de Cassandra. A diferença é que essa seria a primeira vez na companhia de meu pai.

Como vocês podem imaginar, os primeiros anos não foram fáceis. Ícaro continuou relutando sobre esse encontro. Não sei, algo me dizia que éramos mais parecidos do que imaginávamos e que ele também se sentia na obrigação de trazer boas notícias quando fosse visitar minha mãe. Entretanto, tudo o que tínhamos era uma investigação pausada. Além disso, a situação conseguia ser um pouco mais delicada, já que não existiu um momento que meu pai parou e viveu as fases do luto. Já eu, tive que lidar com tudo de uma vez.

Mas hoje era diferente. Meu pai finalmente havia concordado em enfrentar esse obstáculo. E, claro, não precisava nem dizer o quão nervoso e ansioso fiquei por esse momento. Por mais que eu já estivesse familiarizado com aquela atmosfera, estar junto a ele fazia mudar da água para o vinho. Como meu pai reagiria?

— Tudo pronto? — certificou Marta.

— Falta só me calçar — comentei.

— Ícaro? — o som da voz de minha mãe foi aumentando.

— Sim? — Sua expressão transbordava o desconforto que estava sentindo.

— Você pode ir tirando o carro? — questionou Marta. — Lucas vai me ajudar com as flores e já descemos.

— Claro. — Meu pai pegou a chave que estava no móvel e gesticulou para nós. — Não demorem.

No momento que a porta foi fechada, Marta cochichou para mim:

— Filho, sei que você está criando várias expectativas para hoje, mas te peço para ter paciência com seu pai. — Passou a mão no meu rosto. — Você sabe o quanto esse momento é delicado.

— Fica tranquila, mãe. — Segurei sua mão e beijei a palma dela. — Confia em mim.

— Eu confio. — Ela riu abafadamente. — Falo mais por precaução.

Com as flores nas mãos, pegamos o elevador até a garagem. Ícaro nos esperava com o carro ligado e, quando nos aconchegamos, partimos de imediato para o endereço. Da minha casa para o local daria mais ou menos uns vinte minutos, mas a sensação que tive era que estávamos há horas.

Mesmo que minha mãe puxasse algum assunto e eu tentasse manter o ritmo da conversa, as coisas não estavam funcionando. Para ser sincero, parecia mais que meu pai cuspia algumas palavras só para dizer que prestava atenção no que falávamos. Nós sabíamos bem onde sua cabeça estava.

Quando finalmente passamos pela entrada do cemitério, senti meu corpo se arrepiar. Meu pai estacionou e saímos do veículo. Enquanto eu e minha mãe carregávamos as flores, Ícaro olhava ao redor, visivelmente emocionado. Provavelmente sentia o mesmo que eu: um misto de emoções que variavam desde tristeza até conforto.

— Você lembra do local? — checou Marta.

— Lembro — confirmou Ícaro. — A sensação é de que nunca deixei esse lugar desde que a enterramos.

— Realmente. — Marta desacelerou os passos. — As coisas não mudaram muito desde então.

De frente ao túmulo, fiquei em silêncio por uns instantes. Notei que a lápide tinha uma pequena rachadura e algumas folhas tomavam conta do seu nome. Só que o que mais chamou minha atenção foi um arranjo de flores posicionado no meio do local. Certamente não era da minha família, muito menos do Anchieta, já que estava viajando nas suas férias.

Não podia negar que tinha minhas suspeitas, porém não era o momento para isso. Eu me recusava a nutrir qualquer sentimento ruim nesse dia. Cassandra e meu pai mereciam esse descanso.

— Mãe — murmurei. — Você não sabe o que aconteceu. Lembra do que te contei na última vez? Vacilei forte. Acho que eu e Maria Eduarda vamos precisar aprender a lidar com a situação. Sobre o Anchieta, acredita que ele ainda guarda seu distintivo? Pedi para ficar com ele, mas fui vetado.

Depois que passei a visitar minha mãe com mais frequência, mantive o costume de contar sobre a minha vida, as coisas que havia feito desde que entrei de cabeça na investigação e a saudade que sentia dela. De certa forma, sabia que ela podia me escutar.

Ao terminar de ouvir minhas confissões, meu pai se aproximou de mim e colocou sua mão em meu ombro.

— Você sempre levou mais jeito com ela. Acho que é por causa da conexão que só vocês tinham. — Sua voz falhava.

— Tenho certeza de que ela também está feliz com sua visita. — Olhei-o com afeto. — E vai adorar escutar o que tiver a dizer.

— Espero que sim. — Ícaro encarou a lápide. — Sei que estou em falta, Sandrinha. Tenho consciência de que você provavelmente não vai acreditar, mas não foi falta de vontade de estar aqui. Na verdade, tudo o que queria era que estivéssemos juntos. Sinto sua falta todo dia. Desde quando acordo ao momento que fecho meus olhos no travesseiro. Sinto saudade de compartilhar a vida com você.

Por um instante, esqueci completamente que meu pai permanecia com a palma de sua mão no meu ombro até que uma pressão revelou o peso que minhas palavras despertaram nele. Aos poucos, seus olhos entregaram a enxurrada de sensações que há tempos habitava seu interior.

— Está tudo bem, pai. — Levantei-me, preenchendo-o em um abraço.

— Eu-eu... — Sua voz falhava incessantemente.

— Não precisa dizer nada.

Como meu pai não era de muitos afetos, aquele momento representou o mundo para mim. Naquele abraço, senti que estávamos juntos em nossa dor e saudade.

— Sei que não é fácil para você, filho. Sinto muito te fazer passar por isso.

— Você sabe que a culpa não é sua. — Marta se aproximou, curvando-se para colocar o ramo de flores na lápide.

— Minha mãe tem razão — afirmei.

— Cassandra sempre vai fazer parte da nossa história — Marta retomou a fala. — Ela te deu a vida, e eu me encarreguei de honrar sua existência. Tenho certeza de que posso falar pelo seu pai: nós temos muito orgulho de quem você se tornou.

Até então, eu nunca havia pensado por esse lado. Cassandra me deu uma vida incrível, com um pai que sempre esteve presente e amigos fora de série. Além disso, presenteou-me com Marta, que me deu toda a base que precisava. Cheia de amor e cuidado.

No fim, eu tinha duas mães que, da sua maneira, me amavam muito e sempre estariam ali por mim. Eu, definitivamente, era sortudo para um caralho. Como eu imaginava, o Dia das Mães nunca mais seria o mesmo.



A autora:


Foto da autora Ana Camarinha. Mostra uma mulher branca de cabelo preto com uma mecha branca, segurando um livro.

Ana Camarinha é carioca, libriana, formada em Letras e pós-graduada em Escrita Criativa. Nasceu no pôr do sol de 1992 e desde então troca o dia pela noite.Apaixonada por livros de suspense e romance, gosta de dizer que sua escrita surgiu na comunidade Só Webs, no Orkut, e não parou mais.Foi vencedora do prêmio LiTi de 2021 na categoria “Vozes do Brasil” com o livro “Em Quadrados” e ganhou segundo lugar no desafio de Halloween: Pena De Morte, com o conto “O sabor de uma vida”.Atualmente, ela se expressa nas redes sociais dando dicas de escrita, compartilhando seu processo criativo e tudo o que for surgindo no caminho.

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