A Confissão- Douglas Ribeiro



Estou com pressa, por isso serei breve. Meu nome é Clara Pedroso e eu sou Delegada de Homicídios em Porto Alegre. Já atuei em vários casos, alguns médios, outros difíceis. Nenhum fácil. Fiquei conhecida por uma investigação que envolveu um assassino que plantava trevos de quatro folhas para cada uma das suas vítimas. Mas essa história não importa agora. Hoje eu quero contar a você sobre uma confissão. Laura Gomes foi vítima de assassinato e o principal suspeito era seu marido, Ronaldo Azevedo. Ela foi encontrada em sua casa com sete facadas nas costas. O próprio marido havia chamado a polícia. Acontece que Ronaldo tinha sido traído. Laura conhecera Pedro, um cara mais jovem, alto, forte, os braços tatuados e um olhar de derreter qualquer uma. Enfim, um homem que deixava Ronaldo com sua calvície e barriga de cerveja no chinelo. Para resumir os fatos, Ronaldo descobrira a traição e confrontara a esposa um dia antes de matá-la. Eles discutiram feio e os vizinhos saíram para ver o barraco. Ameaçaram chamar a polícia, e só assim Ronaldo se acalmou e foi embora. O homem foi direto para um bar na cidade baixa, e o barman confirmou que ele havia passado a madrugada enchendo a cara por lá. Depois, ele voltou para casa e assassinou a esposa. Laura estava prestes a fugir, tinha até uma mala arrumada sobre a cama. Ela quase escapou. Quando a polícia militar chegou ao local, encontraram Ronaldo ensandecido. — Aquilo era demônio no corpo, doutora. Nunca vi nada assim — disse o sargento Marcelo quando cheguei. Ele acariciava os arranhões vermelhos que Ronaldo havia deixado em seu braço. Foram necessários dois homens para algemá-lo. Ronaldo chorava sobre o corpo da esposa, arrancando roupas da mala e cortando-as com uma tesoura. As mãos estavam sujas de terra, e um tonel no pátio ardia em chamas, queimando papéis e fotos. Parecia uma tentativa de ocultar evidências, mas pra quê? Era óbvio que tinha sido ele. Ao entrarem, os oficiais quase escorregaram na água que escorria desde o chão do banheiro e se misturava ao sangue na sala, enchendo o ambiente de um cheiro rançoso. Descobriram o motivo: o vaso estava entupido com joias de Laura que Ronaldo havia atirado lá dentro. Um caos. Agora ele estava sentado à minha frente na sala de interrogatório, os olhos vermelhos de ódio, sem nenhuma dúvida na hora de confessar: — Eu matei aquela vadia. Fiquei em silêncio, deixando as palavras pairarem no ar. Procurei remorso no semblante dele, mas não encontrei. — Conte de novo o que aconteceu — pedi, recostando-me na cadeira e cruzando os braços. — Eu já falei tudo, não vou ficar repetindo pra você. Já tá tudo escrito naquele papel. Sim, ele já tinha até assinado a confissão. Minha colega, a inspetora Dani, não entendia minha insistência em repassar o interrogatório, mas eu precisava esclarecer algumas coisas. — Só mais uma vez — insisti. Ele bufou de forma exagerada, balançou a cabeça, e começou: — Cheguei em casa às sete e ela começou a brigar. Eu não sou de aceitar mulher gritando comigo, ainda mais uma vagabunda que me traiu. Aí acabei com ela. Franzi o cenho. — Ela brigou com você ou o contrário? — Foi ela. — Você não provocou? Ele deu de ombros. — Só a chamei do que ela era: vagabunda. Mordi os lábios para me segurar e não dizer nada. Ė difícil aturar esse tipo de coisa, mas eu aprendi que, para fazer o meu trabalho, é necessário engolir alguns sapos. — E o resto? — perguntei em tom profissional — Que resto? — Ah! Para com isso, Ronaldo. As roupas cortadas, as joias no vaso... — Queria me livrar de tudo que fosse dela. Tinha nojo. Só matá-la não foi suficiente. Se pudesse, iria trazê-la de volta à vida só pra vê-la morrer mais uma vez. Inclinei-me sobre a mesa e estudei as feições dele. Havia verdade em suas palavras, mas também exagero. Resolvi seguir por essa linha. — Não acredito nisso. Pra mim, você estava tentando ocultar provas. — Pense o que quiser. Nesse momento, percebi que ele estava muito relaxado na conversa. Era hora de deixa-lo um pouco desconfortável. — Ela ia te deixar, não é?

Ele não respondeu, mas vi quando sua mandíbula se fechou de raiva. Ali estava a ferida. Entenda que, naquele momento, eu não tinha certeza de onde aquilo iria dar, apenas uma intuição. Ele podia ter torturado a esposa, por exemplo, e isso seria um agravante ao homicídio. Eu precisava saber toda a verdade, e o único caminho era pressioná-lo até que ela saísse. — Eu o conheci hoje. O Pedro. Cara bonito, né? Alto, forte. E aquelas tatuagens tribais e o brinquinho de caveira na orelha esquerda? Um gato, né? Ronaldo fitava o chão, a boca curvada de ódio. — Por favor, Ronaldo — prossegui —, dá pra culpar a Laura pelo que ela fez? Olha pra você! Pelo amor de Deus. Quando foi a última vez que levantou um peso que não fosse um copo de cerveja? Duvido até que seu amiguinho lá de baixo funcione. Antes que eu terminasse a frase, Ronaldo saltou em minha direção, deixando o rosto a meio palmo do meu. Não recuei. Ele proferiu uma série de insultos que não vale a pena citar aqui. Disse que eu era igual a mulher dele e só pensava em abrir as pernas para o primeiro que visse. Um policial entrou e foi na direção de Ronaldo, mas eu fiz sinal para que ele parasse. Quando cansou de me ofender, o acusado caiu na cadeira. Havia algo de interessante nele. Muito ódio e ressentimento, é claro, mas também outra coisa. Tristeza. Quando a poeira baixou na sala de interrogatório, falei com a voz mais condescendente que podia: — Ele tirou tudo de você, não é? Ronaldo fungou, refreando uma lágrima. Cheguei mais perto dele, os braços sobre a mesa. — Sabe o que eu acho? Ele ergueu os olhos. Eu me sentiria um lixo com o que estava prestes a dizer, mas era necessário. — Eu acho que ela era uma vadia mesmo, Ronaldo. Uma vagabunda que te traiu. As palavras saíram amargas. Fiquei feliz por minha parceira Dani não estar ali para me ouvir dizer isso de outra mulher. Senti-me enojada por transformar em culpada a vítima de uma atrocidade, mas era necessário para entrar na mente deturpada de Ronaldo. Levantei e caminhei pela sala. — Acredito em tudo que você falou. Odiava Laura e queria matá-la. Ela precisava sofrer para pagar, certo? Era o único jeito. Sim, eu tenho certeza que você queria muito isso, mas tem mais uma coisa. Eu sei que você não fez. Ronaldo apertou os olhos, embasbacado. — Você tá louca!? Eu acabei de confessar. — Corta essa, Ronaldo. Suas descrições foram vagas e imprecisas! E ainda fez uma bagunça para ocultar provas e depois vir com esse papo de "mudei de ideia"? — Soltei uma risada forçada. — Francamente! Puxei a cadeira e sentei da forma mais ruidosa que podia. Era hora de mostrar quem estava no comando. — Agora vou dizer o que aconteceu. Você chegou em casa irado. Ia dar àquela puta o que ela merecia, talvez até se matasse depois. Só que quando você chegou, ela já estava morta. Você não queria acreditar. Não podia acreditar. Por isso me disse agora a pouco que tinha vontade de ressuscitá-la só pra matá-la de novo. Porque você não teve chance de fazer isso da primeira vez, não é? Por isso saiu rasgando as roupas e tocando as coisas fora. Precisava extravasar o ódio que não pode depositar na sua mulher! As pernas de Ronaldo balançavam sob a mesa, e ele tentava disfarçar os tremores. Eu não reduzi a marcha: — Ele tirou até isso de você, não foi? — Era um blefe, claro, eu não podia ter certeza absoluta. Mas a lágrima que escorreu pelo rosto de Ronaldo me fez perceber que estava no caminho certo. — Ele foi até a sua casa, o Pedro, e a matou, não foi? Nem isso aquele filho da puta deixou pra você. — Você tá doida! Não sei de nada do que você tá falando. — A voz dele não expressava a mínima convicção. Era hora de baixar o tom, pegar leve. Tão importante quando pressioná-los é saber a hora de parar. Você os atira no mar, e em seguida joga a boia de salvação.

— Lembra do que eu lhe disse? — perguntei. — Hoje de manhã interrogamos o Pedro. Sabe o brinco de caveira na orelha esquerda? Pois então, a orelha direta estava vazia e um pouco arranhada. Eu iria pressioná-lo sobre isso, mas então me disseram que você estava pronto para confessar. Ronaldo negava com a cabeça enquanto eu falava. — Esse brinco está lá em algum lugar, não está? Você fez de tudo para escondê-lo. Queria mostrar a todos que você matou a vadia. O machão, assassino, que acaba com todas que ousarem traí-lo. — Abri os braços. — Eu não gosto de você Ronaldo, e você não gosta de mim. Eu te acho um merda, de verdade, mas também sei de uma coisa: você não é um assassino. Encerrei meu discurso e aguardei. Seria mais fácil se ele cooperasse, mas senti que não iria. — Tudo bem. — Fechei a pasta do caso e bati sobre a mesa para ajeitar os papéis. — Eu vou descobrir sozinha, então, e vou te jogar na cadeia por obstrução de justiça. Ou melhor, vou dar um jeito de dizer que você e Pedro fizeram tudo juntos. Não seria legal? Quem sabe vocês não viram companheiros de cela? Levantei-me para sair e caminhei até a porta sem hesitar. Quando já estava girando a maçaneta, o ouvi dizer: — Espera! Ronaldo desabou a chorar feito criança. Tentou levar as mãos ao bolso, mas as algemas o impediram. Fui até lá e desprendi suas mãos. Em seguida, ele pegou o objeto e me entregou. Um brinco de caveira sujo de sangue. Sentei-me novamente para ouvir de Ronaldo sua verdadeira confissão. Mais tarde, descobrimos que Pedro tinha ido até Laura para levá-la embora, mas a mulher não aceitou. Pedro ficou furioso, pois tinha se apaixonado por ela – inclusive foi ele mesmo quem arquitetou tudo para que Ronaldo descobrisse o affair. Pedro matou Laura, que ao tentar se defender com um tapa arrancou o brinco dele, encontrado mais tarde pelo marido. Pedro arrumou as malas e inventou que os dois fugiriam juntos. Achou que tinha tirado a sorte grande quando o idiota do Ronaldo assumiu a culpa. Ele só não contava que eu estaria lá, determinada a escavar até descobrir tudo. O caso de Laura está na minha mente até hoje, e me ajuda a lembrar que a função do detetive não é descobrir quem é o "mau" da história. Afinal de contas, ninguém é mocinho ou bandido. O trabalho do detetive é encontrar o bem mais escasso da nossa sociedade. Algo mais raro que qualquer animal em extinção e mais valioso que qualquer fortuna: a verdade. E é só isso que me move. Eu poderia te contar outras histórias, mas preciso ir. Se você quer conhecer o caso mais bizarro que já presenciei, compre o livro Presa Fácil pela Editora Flyve. Ele está em pré-venda por um valor especial, e você não vai querer ser culpado pelo crime de não aproveitar essa promoção. Não é?


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