• Ricardo Resende

Três coisas para não fazer ao planejar um personagem


No momento em que um autor decide que vai escrever um livro, uma das primeiras coisas que ele define é a identidade do(a) seu(sua) protagonista. O mesmo processo vai se passar com cada pequeno indivíduo que for incluído no enredo, independentemente do quão irrelevante ele possa ser. Tudo isso parece muito simples, mas um pequeno passo em falso pode minar uma grande história e fazer com que um fã em potencial feche o livro no meio e não te dê a oportunidade de mostrar o seu valor. Por isso, trago aqui algumas dicas de coisas a serem evitadas na criação e apresentação de personagens.

Definir apenas características superficiais

Muitos autores, antes de começarem a escrever, optam por fazer uma ficha de seus protagonistas. Essa ideia é excelente, pois ajuda a dar forma àquilo que está em sua mente, fazendo com que suas personagens ganhem mais vida e profundidade. Entretanto, é muito comum encontrar pessoas que, ao fazer esse processo, se atêm apenas a pontos-chave, como "generoso e corajoso". O resultado disto é que tal personagem acaba por se tornar rasa e previsível. Alternativamente, por ter sido pouco pensada, ela pode tomar atitudes incoerentes com a sua construção de modo que, mais do que surpreendente e interessante, torne a obra inconsistente.

Para evitar cair nessa armadilha, é importante que o escritor dedique tempo pensando em detalhes do passado de suas personagens e em como isso se reflete em como elas são. O mesmo vale para diversos pontos importantes, como aparência e preferências. É melhor ter vários fatores na biografia de uma personagem que não venham a ser utilizados no enredo do que ter em mãos um protagonista sem profundidade.

Dar atenção em excesso a personagens pouco relevantes

Grande parte do tempo de leitura é uma experiência de criação de expectativas. Estas são frustradas ou não a cada página e ajudam o leitor a continuar devorando um livro agradável. Se, por um lado, leitores gostam de ser surpreendidos, eles também apreciam narrativas objetivas. A maioria das pessoas está disposta a ler dois ou três parágrafos falando da mulher do outro lado do bar se ela for relevante para o enredo, independentemente do modo. Entretanto, poucas coisas são mais irritantes que narradores que gastam linhas e linhas destrinchando algo absolutamente inútil.

Se o autor pretende criar uma personagem com o intuito único e exclusivo de ter uma participação pontual e pouco memorável no enredo, gastar muito espaço com descrições e devaneios sobre tal personagem é mais que simplesmente improdutivo: é maçante. O leitor quer ser guiado ao longo do enredo. Ele não quer ler parágrafos que ele sente que poderiam simplesmente não estar lá. Se a mulher do outro lado do bar não tem relevância alguma, não é necessário se debruçar muito sobre ela.

Moldar a personagem de acordo com a necessidade do enredo

"Se eu preciso que ele seja corajoso, eu o faço assim, mas seu eu necessito de covardia, eu dou um jeito de transformá-lo num covarde". Essa linha de raciocínio é a forma de pensar de muitos escritores e não está de todo errada. Situações de enredo bem construídas podem, sim, resultar em mudanças de personalidade que não se configuram como falhas de planejamento de personagens. Entretanto, quando isso acontece com uma frequência muito grande ou quando o processo não é bem conduzido, ocorre a criação do que eu chamo de personagens-camaleão.

Uma personagem-camaleão não tem forma. Ela é sempre moldada pelos seus arredores. São imprevisíveis, mas, mais que isso, são inverossímeis. Pessoas não agem sempre do mesmo jeito, motivo pelo qual personagens planas são incoerentes em última instância, mas elas têm padrões de comportamento. Um bom planejamento ajuda a definir esses padrões de forma que as possíveis mudanças que a personagem sofra ao longo do enredo sejam consistentes com as características-chave imutáveis. Isso dá ao leitor a sensação de que personagem amadureceu ao longo daquela série de cinco ou seis livros, e não que ela se transformou em algo inteiramente diferente.

Atenção ao contexto

Todas as dicas que eu estou dando estão fora de contexto. Isso significa que não dá para aplicá-las diretamente sem olhar bem o enredo em questão. Digo isso para que você, autor que está lendo meu texto, não ache que está tudo errado porque está em desacordo com alguma das minhas ponderações. Leia minhas palavras com carinho e saiba avaliar se elas se aplicam às suas personagens. Se este for o caso, sugiro que tente corrigir o problema com urgência. Entretanto, se não for, evite se desesperar. Lembre-se que trocar o pneu de um carro em movimento é impossível, então, pare de tempos em tempos para fazer a devida manutenção no seu trabalho.


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