Querida América- Larissa Bittencourt

Já está no clima do natal? A Flyve sim, por isso trouxemos esse conto bem natalino, na verdade uma carta, escrita por um personagem do livro "Os Dias ao Seu Lado" da Larissa Bittencourt, escritora do livro.


O conto se passa após o livro publicado aqui na Flyve. Preparados para o romance?


Banner com o título do conto em vermelho, logo da Flyve e uma caneta de pena que abre um espaço para uma foto de um casal em frente a árvores de natal dançando. O rapaz usa um chapéu natalino.

25 de Dezembro de 2003


Querida América,


É natal em Serra do Mato e eu não paro de pensar no quanto queria estar olhando para você sob as luzes do pisca-pisca. Lembra daquele natal há dois anos atrás? Nós estávamos na festa de fim de ano temática do bar, você estava com aquelas orelhas de rena e foi a coisa mais linda que eu já vi na vida. Fiquei a noite inteira vidrado em você, mesmo tentando disfarçar, não consegui conter o meu instinto em te olhar mais de perto só para ter certeza que meu coração palpitaria como todas as outras vezes.


Eu me lembro perfeitamente daquela sua expressão indignada quando eu cheguei perto e fiz uma piadinha com o seu arco de rena. Você me olhou diretamente nos olhos, sem vacilar nem um segundo, e deu aquele sorrisinho antes de dizer que a minha gravata de papai Noel era a coisa mais ridícula que você já tinha visto.


Eu sei que era ridícula, só a coloquei porque sabia que você ia reparar e eu veria o seu sorriso. Meu Deus, o seu sorriso era o que me motivava a continuar o nosso joguinho de gato e rato.


Naquela mesma noite de natal na festa, não consegui tirar os olhos de você e esperei cada segundo por uma nova interação entre a gente, mesmo que fosse para brigar.

Eu sempre esperei ansiosamente para ter o mínimo de contato com você, América.


Já no final da noite, eu estava indo embora e você veio atrás de mim, trocando os passos por conta da bebida, só para dizer exatamente essas palavras: “Dizem que essa é a data de fechamento e início de novos ciclos, então estou encerrando nosso ciclo de ódio por esse ano, vou deixar para voltar a te odiar no ano que vem. Feliz natal, Batista. Eu até gostei da sua gravata.”


Guardei cada palavra que você disse todo esse tempo porque foi ali que eu ganhei meu ano inteiro. Por um momento algo dentro de mim se acendeu.


Estou escrevendo isso porque faz apenas dois dias que fui solto e já li e reli sua carta umas duzentas vezes. Não consegui comemorar o natal como nos outros anos, em que eu sabia que te veria no bar com aquele arco ridículo de rena ou que implicaríamos um com o outro só porque precisávamos esconder o que sentíamos.


Prometi a mim mesmo que não tentaria entrar em contato pelo seu próprio bem, mas não consegui manter minha promessa porque é natal e eu estou ainda mais nostálgico e talvez um pouco bêbado também. É a sua época preferida do ano e eu não consigo parar de pensar em você, naquela noite de natal e no quanto sinto a sua falta.


Agora que você já está na Europa, segura e não há chances de voltar para Serra do Mato, acho que lhe devo uma explicação.


Primeiro de tudo, quero dizer que sinto muito. Meu Deus, eu sinto muito mesmo, América. Falar aquelas coisas para você e te ver destruída daquele jeito, rasgou o meu coração em milhões de pedaços. Nunca quis ser o motivo das suas lágrimas, mas não havia outro jeito.


Se você ficasse aqui, correria risco de vida. Meu pai jurou vingança, me disse que você pagaria na mesma moeda, já estava planejando tudo e eu não vi outra opção a não ser que você fosse embora e nunca mais voltasse. Eu nunca deixaria ninguém te tocar, mesmo que para isso eu precisasse ficar longe de você.


Eu menti em todas as palavras que disse na delegacia, eu não te odeio, não tenho raiva de você e nunca parei de te amar. A verdade é que eu te amo tanto que precisei abrir mão de você pela sua segurança.


Você escreveu que eu estava certo quando disse que nós dois nunca poderíamos ter um final feliz, mas eu gostaria muito de estar errado. Queria que o nosso “para sempre” fosse possível. Queria montar uma família com você longe dessa loucura, viver as noites de natal ao seu lado e te beijar durante todos os dias da minha vida até a eternidade.


Mas infelizmente, a nossa história teve que ser encerrada. Os momentos que passei com você durante esses meses, foram os melhores da minha vida inteira. Dizer em voz alta que te amo foi a melhor sensação da minha vida.


Quero que saiba que eu não te odeio e você não precisa se desculpar comigo por nada. Eu acredito em você, sei que nunca armaria para mim ou tentaria me incriminar.

Eu te amo, América. Sempre te amei e sempre vou te amar, e é por isso que fiz de tudo para você poder ir embora. Só falei aquelas coisas na última vez que nos vimos porque eu sabia que você só iria sair de Serra do Mato se eu acabasse com o seu coração e, consequentemente, com o meu.


Me doeu demais te ver naquele estado, ainda me dói e me corrói por dentro lembrar daquele dia.


Espero que você esteja aproveitando essa noite de natal o tanto quanto sempre aproveitou. Não sei quando Lana vai enviar essa carta até você ou quando vai chegar aí na França, mas desejo que você seja feliz e que tenha o “para sempre” que tanto merece.

Se um dia, por acaso, você voltar à Serra do Mato e nossas famílias estiverem em paz, saiba que vou estar te esperando.


Sempre vou te esperar, América. Em todas as minhas vidas. Para sempre.


Feliz natal e feliz vida.


Com amor,


Santo



foto da autora Larissa Bittencourt, mulher branca, com cabelos longos castanhos, sorrindo. Usa uma blusa preto e branca e apoia o rosto na mão direita.

Sobre a escritora


Larissa Bittencourt nasceu no Rio de Janeiro em 1999, bem na semana do carnaval. Apaixonada por romances e clichês desde criança, começou a escrever suas próprias histórias aos 12 anos para as suas amigas do colégio. Os Dias ao Seu Lado é seu primeiro romance publicado pela Editora Flyve.











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