Homônimo - Nia França


Maior parte do fundo rosa, em cima invadido vem o título do conto "homônimo" em rosa sobre o preto. Na parte rosa há um homem andando e sua sombra carrega uma faca.
"Homônimo" é um conto da escritora Nia França, que publicou um livro pela editora Flyve e se tornou autora tradicional da casa.

— Humm... Transtorno de personalidade antissocial. Isso é...


— Psicopatia. Sim.


— E o senhor acha que teria condições para esse cargo?


— Se por condições, a senhora diz auto controle, eu digo que sim, perfeitamente. Eu prefiro ser sincero expondo minha condição psíquica, não costumo andar com uma placa no pescoço, mas eu preciso que entenda que eu quero muito essa vaga e sou absolutamente capaz de exercê-la. Tenho um bom histórico acadêmico caso queira dar uma olhada.


O fetiche do psicopata criminal permeava cada canto da minha vida. Olha só, ele é um assassino psicopata insano, como nos filmes. Pessoas como ele não tem outro caminho a seguir, se não esse, não é?


Não, eu digo que não é. Pessoas como eu tem uma vida, e nem sempre são o estereótipo Norman Bates pintado pela mídia. Alguns, assim como eu, são bem civilizados, e entendem que matar pessoas trazem consequências judiciais bem desagradáveis, como a prisão.


É claro que eu já senti curiosidade sobre como seria matar uma pessoa, mas convenhamos, não precisa ter uma psicopatologia para isso. A curiosidade é natural de todo ser humano. O único detalhe é que pessoas como eu costumam ter a curiosidade um pouco mais aguçada e uma sede por adrenalina muito mais intensa. Mas eu me empenho para não me render aos impulsos mais repulsivos. Na verdade, eu tenho um alto controle invejável. Uma parte por causa das terapias, mas a grande parte é por causa de mim mesmo. Aprendi a dissipar esses impulsos com outras atividades, como culinária, pintura e sexo. Modéstia parte, eu sou excelente em todas elas.


Desde a infância existiam suspeitas da minha " psicopatia", uso aspas simplesmente porque crianças não podem ser diagnosticadas como psicopatas, diferente do que as pessoas dizem por aí ( as pessoas falam demais sobre coisas que não sabem ).


Durante o período da infância, eu passei por acompanhamentos sistemáticos porque, acredite ou não, foi a fase mais violenta da minha vida. Eu não gostava de animais e nunca entendi porque as pessoas cuidavam de algo que vai destruir os chinelos e fazer cocô na casa inteira ( hoje, entretanto, eu tenho um hamster. A doutora Sofi diz que companhia faz bem. Ah, doutora Sofi..). Machucar aquelas criaturinhas era meu passatempo preferido ( mas eu nunca matei nenhum, e posso me orgulhar disso!), principalmente com agulhas. Eu sempre adorei agulhas.


Mas o motivo da minha primeira consulta não foi isso, e sim a excessiva falta de empatia e frieza diante de todas as relações humanas. Sempre me pareceu perca de tempo ter que nutrir laços afetivos. Relações interpessoais? Ok. Mas laços afetivos? É muito mais uma imposição social do que um sentimento genuíno.


Aos seis anos de idade, eu já entendia isso. Ter que dispor do meu tempo para preencher o vazio sentimental dos outros não fazia sentido para mim, então eu não fazia. Essa parte é verdade sobre os psicopatas. Nossa escala sentimental é quase nula. Digo quase porque sentimentos desencadeados por causa da adrenalina não deixam de ser sentimentos. A raiva por exemplo, é muito comum.


Acho que no fim das contas eu gosto de ser um psicopata. É mais prático. Todos os sentimentos que eu tenho tem mais a ver comigo mesmo do que com outras pessoas. São sentimentos que nasceram dentro de mim e não precisam de ninguém além de mim para nutri-los. É interessante, não é? Nós psicopatas somos aquilo que todos os seres humanos deveriam ser: individualistas.


Todas essas questões internas foram os reais- e únicos- motivos para a minha avaliação. Se tratava muito mais do que eu poderia fazer, do que algo que eu já tenha feito. É como uma arma. Uma arma carregada de pensamentos perigosos, mas que é absurdamente incapaz de ferir qualquer um se for descarregada. Eu chamo isso de terapia.


— .. todos os dias é a mesma coisa. Ele insiste em colocar o lixo dele na minha lixeira. Não dá pra entender isso porque em todas as casas do bairro tem uma lixeira. É pedir demais que ele use a dele? Eu não gosto de pessoas folgadas.


— Quem gosta?— Sofi rabiscou algo em sua prancheta numa linha elegante de traçado fino.— Acha que seria capaz de algo contra ele?


— Sim. Desprezo.


Eu faço parte de um projeto de reintegração social para pessoas com transtorno de personalidade antissocial. A ideia é colocar essas pessoas nas ruas, de forma com que se sintam acolhidas e não estranhas, o que é praticamente impossível, porque todas as vezes, vão te olhar assustado. Não dá pra falar que é um psicopata e esperar reações positivas. Ainda assim, eu sou o exemplo mais bem sucedido do projeto.


Acredita? Um psicopata que nunca matou ninguém? Nenhuma passagem na polícia, nenhum histórico de agressão, nenhum furto ou vandalismo e relações interpessoais muito bem- razoavelmente- saudáveis! É como qualquer outro transtorno mental. Esquizofrênicos também matam quando entram em crise. Psicóticos também matam quando alucinam. Pessoas normais também matam (isso sim assusta). Mas o psicopata é o culpado de tudo, não é?


— E quanto a adrenalina... O que anda fazendo pra conseguir?


Sofi sabia que a minha sensação favorita era adrenalina. Eu costumava ser bem extremo antigamente, beirando os limites. Por isso, toda a semana, ela faz essa mesma pergunta.


— Nada muito relevante. Ando ocupado com o trabalho.


— Humm... e como anda o trabalho?


— Ter que dar aulas pra adolescentes é estressante pra qualquer um, mas eu já estou acostumado. Essa semana aconteceu algo muito curioso.


— Pode compartilhar?— ela apertou o botão do gravador discretamente, mas eu vi.


— Um aluno... eu tenho um aluno que adora dizer aos outros que é um psicopata. Acho que ele acha charmoso. Talvez impressione as garotas da idade dele, não sei. Mas ele veio falar comigo. É um garoto esquisito, forçadamente esquisito, e rebelde. Eu me senti desconfortável com ele. Suas perguntas eram certeiras demais.


— Que tipo de perguntas?


— Dúvidas específicas demais, sobre momentos e personalidades históricas. Começou inocente, mas logo se tornou pessoal. Ele se virou pra mim e perguntou " Você teria coragem? Coragem de ser como eles e fazer um holocausto?". Pareceu forçado, é claro. Mas eu não sei se ele estava falando sobre ele mesmo, tentando se provar psicótico, ou se estava tentando descobrir algo sobre mim.


— Está desconfiado que ele saiba sobre você?


—Não. Tenho certeza que é só fantasia de um garoto que acha que psicopatia é um estilo do Tumblr. Mas me preocupa quando vejo na prática o quanto isso é glamourizado. Eu não sou violento, Sofi, você sabe. É horrível pensar que vou carregar esse estereótipo pra sempre.


— É comum que as pessoas façam pré-julgamentos a partir daquilo que existe no inconsciente coletivo. Pessoas com transtorno antissocial sempre foram marginalizadas, porque é mais fácil prendê-las do que tratá-las. Os próprios psicólogos as vezes criam restrições quanto a isso, muitos acreditam que não existe tratamento. Mas é nossa função, entende? E olha só pra você. É um grande exemplo — sorri.


Eu não acho Sofi insuportável. Ela tem qualidades até bem admiráveis, como a dedicação. Sem falar que é fundamental para mim ter alguém que acredite na minha conduta.


—... como andam os seus relacionamentos?


— Que tipo de relacionamentos?


Minha vida é solitária. Por opção.


— Sofi, você acha que eu vou ter uma família algum dia?


Ela mordeu a ponta da caneta e cruzou as pernas. Eu sentia que esse tipo de assunto ainda era um tabu. Uma pergunta com múltiplas respostas, mas nenhuma comprovação. Por isso eu a questionava. Gostava quando ela fazia aquela cara. Mas principalmente, gostava de deixá-la sem palavras.


— Por que não me diz você?


Esperta. Repassou a pergunta.


Sorri discretamente e cruzei a perna também, num movimento reflexo ao seu. É sempre interessante conseguir desestruturá-la.


— Acho que algumas coisas podem ser treinadas e desenvolvidas — ela mesma se respondeu.— Seria importante pra você conviver com outras pessoas, mas pode não ser saudável pra essas outras pessoas, entende? Estamos de acordo que você é absurdamente controlado, mas apesar de nunca ter machucado ninguém fisicamente - ela foi enfática- você ainda possui traços de personalidade destrutivos. Matar não é a única forma de ferir alguém, por isso eu me preocupo muito em entender como pensa e como age com as outras pessoas. Ser manipulador e abusivo pode ser tão perigoso quanto assassinar.


Endireitei o corpo na poltrona.


— Acha que eu sou?


— Acho que você tem uma vantagem por se esforçar pra não ser. Por isso precisa sempre estar consciente dos seus atos. Não adianta você ser um cidadão correto perante a lei, ir para igreja e seguir as regras de conduta moral, mas se mostrar violento e dominador em outras áreas da vida...


Por algum motivo Sofi gostava de jogar na cara minha religiosidade. Eu sou fascinado pela forma como ela me conhece, mas também odeio muito ela por isso.


O meu Deus é muito semelhante a mim. E eu gosto de acreditar que exista alguém como eu.


Saí da consulta com Sofi dez minutos antes do previsto usando a desculpa de que precisava passar na garagem para retirar o carro antes que desse o tempo. A verdade é que fiquei um pouco estressado, e preferi que ela não notasse.


Fechei a porta do consultório, dando de cara com o único paciente presente na sala de espera. Tudo ali era agradavelmente harmônico, os móveis contrastando com as paredes e a cortina, tudo em tons frios e pastéis, caindo no verde acinzentado e hospitalar em pontos estratégicos.


Aquele ser com certeza não combinava com a serenidade do ambiente. Era discrepante. E eu odeio discrepância.


O garoto vestido de preto segurava um isqueiro próximo da ponta da língua. Assim que seu olhar me encontrou, ele sorriu.


Era ele. O garoto perturbado que me perseguia com perguntas inconvenientes. Raramente ele entrava nas aulas, mas conseguia a incrível proeza de aparecer em todos os outros lugares. Como sempre, gostava de causar, sempre dando um jeito de chamar a atenção, fosse causando rebelião no refeitório, gritando com os professores ou prensando suas colegas de classe pelos corredores.


— Alexey Müller.


Alexey?


— Olá, olá, professor. Quem diria- seus olhos castanhos eram grandes e hiper expressivos. Além de maléficos —, se consulta com a mesma piranha vadia que eu. É por causa dos peitos também?


— Devia ter mais respeito pelas pessoas.


Ele cuspiu perto dos meus pés.


— Alexey?—Sofi chamou novamente.


Eu poderia estourar os miolos dele aqui mesmo. Mas tudo o que eu fiz foi abrir espaço para que ele pudesse passar.


Alexey cruzou meu caminho, esbarrando em meus ombros. Eu me virei, brevemente, para acenar para Sofi, mas nesse momento meus olhos ignoraram o sorriso gentil dela e foram parar nele.


O garoto estava armado. Ele ergueu a camisa propositalmente, deixando visível a pistola presa na parte de trás do cós da sua calça.


Alexey não era psicopata. Problemático, talvez. Mas não doente. Era apenas fruto de um sistema corrompido que adora sangue. Ele gostava disso, ele escolheu isso. De tanto forjar uma loucura inexistente, ele se tornou submerso.


Biiiip!


Meu despertador tocou.


Dessa vez era verdade, eu precisava pegar o carro na garagem ou levaria uma multa daquelas! Além disso, o Toy devia estar esfomeado em casa.


Virei as costas e saí.


Alexey fechou a porta do consultório.


Sobre a escritora:

Foto da escritora Nia: uma mulher de 20 anos, cabelos cacheados, pele da cor negra, com óculos, uma blusa preta com mangas longas, calça jeans, uma gargantilha. Ela está em frente a uma parede branca com dois enfeites e parece que o sol toca o rosto dela pela janela.
Nia França

Um clichê alternativo que gosta de se vestir estranho e fazer piadinhas ácidas. Nia é como os seus livros: estética marcante e conteúdo crítico. A escritora, de 20 anos, lançou o livro distópico "Irmandade dos Sem Futuro" em 2020, que ganhou o primeiro lugar em ficção científica pelo Prêmio Ônix, e já está trabalhando nas suas próximas publicações. Além de uma leitora voraz, Nia também é super cinéfila e traz forte influência do cinema em seus escritos. Atualmente, Nia cursa o ensino superior em letras e espera evoluir cada vez mais em sua escrita.



Gostou do conto? Então corre para conferir também o livro dela o " Irmandade dos Sem Futuro" que está na promoção de inverno!